Divulgamos abaixo, a CARTA ABERTA que enviamos hoje para autoridades do Governo e da Sociedade Civil, particularmente grupos de mulheres, organizações, redes e articulações do movimento feminista e de mulheres.
A Carta insere-se entre as ações do movimento, no contexto de avaliação da Plataforma de Beijing, na ONU, durante a 49ª Sessão da CSW, iniciada ontem (28), em Nova York, conforme divulgamos em várias matérias de nosso boletim
"ARtiCULANDO Eletronicamente".
CARTA ABERTA
Exmo. Sr. Luís Inácio Lula da Silva, Presidente da República,
Ministros e Secretários de Estado,
Ministras Nilcéa Freire, Matilde Ribeiro, Marina Silva e Dilma Rouseff,
Senhoras e senhores Senadoras/es da República, Senhoras e senhores. Deputadas/os Federais
Sras senadoras e deputadas da Bancada Feminina no Congresso Nacional
Há dez anos, na China, a Conferência Mundial sobre a Mulher aprovou a Plataforma de Ação Mundial, em cuja declaração os governos firmaram o compromisso de "promover os objetivos de igualdade, desenvolvimento e paz para todas as mulheres do mundo, nos interesses de toda a humanidade".
Naquele mesmo ano, era criada a Organização Mundial do Comércio, com fins de construir e garantir o cumprimento de acordos comerciais entre países. Estes dois episódios demarcam bem o processo de uma década de lutas dos movimentos de mulheres e feminista, confrontando a perspectiva da globalização dos mercados (da OMC) e contrapondo-se a ela pela reafirmação da universalidade e integralidade dos direitos humanos.
A luta aguda desta última década começou bem antes, há trinta anos, quando as Nações Unidas realizaram a I Conferência Mundial sobre a Mulher, no México, em 1975, naquele mesmo momento em que estourava a crise da dívida e recém anunciava-se o Consenso de Washington, reservando novas responsabilidades ao FMI e ao Banco Mundial. A década de 70 anunciou, assim, a guinada vertiginosa da ordem internacional, conformada no pós-guerra e estruturada na criação da Organização das Nações Unidas - ONU.
No ano em que se comemoram os dez anos da Plataforma de Beijing, dirigimo-nos às autoridades da República do Brasil para apresentar nossa insatisfação com a insuficiência de resultados alcançados pelos governos e pela ONU. Esses anos foram marcados pelas políticas de ajuste, reforma liberal do Estado e imposição de acordos de livre comércio, que somente agravaram no mundo e no Brasil as desigualdades e injustiças. A guerra firmou-se como estratégia de dominação econômica e a violência cresce em todas suas formas, por toda parte. A sobrevivência segue também ameaçada pelas degradação ambiental. Novas expressões do sexismo constituíram-se, (re)subordinando as mulheres e aumentando a exploração sobre seu corpo e força de trabalho.
Esta situação se fez, em grande medida, pela falta de vontade política dos governos para formular programas que dessem conseqüência - em toda sua dimensão e implicações - à Plataforma de Beijing. Ao contrário, a maioria dos governos capitulou à ordem neoliberal em suas políticas domésticas. Os governos dos países ricos consolidaram e fortaleceram a OMC, em favor de seus interesses comerciais, em detrimento da ONU e do direito ao desenvolvimento para os países da periferia do capitalismo. Países, ricos e pobres, membros do Banco Mundial, FMI e Banco Interamericano, e ali representados por seus ministros da área econômica, aderiram mais firmemente às políticas de ajuste. Tudo isto causando efeitos nefastos sobre a saúde, a seguridade social, as condições de trabalho e o bem-estar das mulheres.
No contexto desses dez anos, a ONU vem esvaziando-se de sentido frente ao unilateralismo norte-americano, deixando escancarada a visão do descaso com seus mecanismos, convenções e tratados que muitos governos sequer consideram. Entretanto, no âmbito da ONU, a luta das mulheres e dos movimentos pelos direitos humanos encontraram grande suporte, legitimidade e visibilidade, mas sua estrutura revelou-se pouco democrática: alguns países ricos têm mais poder que todos os países pobres juntos; o Vaticano, território de uma religião, um lugar sem espaço para as mulheres e famílias, mantém-se com status de Estado membro, em que pese todas as campanhas e esforços dos movimentos de mulheres e feministas, no mundo.
Deste modo, a crise da ONU, num contexto fundamentalista e de globalização neoliberal, denuncia a urgência de espaços multilaterais articulados na defesa dos direitos humanos, da diversidade e democracia, de alternativas econômicas.
Passados dez anos de lutas e resistência dos movimentos de mulheres e feminista, a Articulação de Mulheres Brasileiras – AMB, mantém-se no firme propósito de confrontar as políticas e sistemas que seguem excluindo, discriminando e oprimindo cotidianamente as mulheres. Mantém-se no propósito de denunciar e estar vigilante na luta anti-racista e contra o assassinato, tortura e todas as formas de violência impigidas às mulheres. Na defesa da livre orientação sexual, da maternidade livre e voluntária. Na luta pelo direito ao aborto, a uma vida sem violência e pelo direito das mulheres ao trabalho digno e justamente remunerado. O direito de acesso aos meios de prover o próprio sustento e ter autonomia econômica, contra a mercantilização da vida. Estes são também alguns dos compromissos firmados pela I Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres, convocada pelo governo brasileiro e que, se colocados em prática, vão se configurar na afirmação da Plataforma de Beijing.
Na 49ª reunião da Comissão da Condição Jurídica e Social da Mulher, na ONU, que acontecerá entre 28 de fevereiro e 11 de março, exigimos e esperamos um posicionamento político da diplomacia brasileira em favor dos direitos humanos e liberdade das mulheres.
Expressamos nossa confiança que a ação da Secretaria Especial de Políticas para Mulheres, em especial da ministra Nilcéa Freire, permaneça orientada contra os fundamentalistas e a política de Bush, reafirmando sua posição valente e corajosa na defesa das mulheres frente à direita conservadora.
Na reunião especial de alto nível do Conselho Econômico e Social com as instituições de Bretton Woods e a Organização Mundial do Comércio (prevista para abril/2005) e no Diálogo de alto nível da Assembléia Geral sobre o financiamento para o Desenvolvimento (previsto para junho ou julho/2005) reuniões das quais participam ministros de Estado, alertamos para o compromisso firmado pelos 189 governos em Beijing´95, cuja Plataforma de Ação assume o combate "às causas estruturais dessa pobreza mediante mudanças nas estruturas econômicas, garantindo a igualdade de acesso a todas as mulheres, incluindo aquelas das zonas rurais, aos recursos produtivos, oportunidades e serviços públicos". Há que se considerar que as políticas econômicas, de comércio e de desenvolvimento, hoje prevalecentes constituem-se verdadeiros obstáculos à independência econômica da grande maioria de mulheres, no mundo e no Brasil.
Na reunião plenária de alto nível, na 60ª Sessão da Assembléia da ONU (prevista para setembro/2005), demandamos o empenho do governo brasileiro no aprofundamento do debate sobre as contradições e debilidades do sistema ONU, defendendo sua reformulação na direção de uma democratização dos poderes entre países.
Na reunião interministerial da OMC, prevista para dezembro de 2005, em Hong Kong, é necessário que o governo brasileiro firme compromissos com um modelo de desenvolvimento que respeite a auto-determinação dos povos e os direitos humanos das mulheres; e que, portanto, não subordine a economia brasileira aos ditames impostos pela forma de liberalização que beneficia a acumulação de capital dos países centrais e suas mega corporações, mas também não subjugue países mais pobres que o Brasil. Trabalhando na direção de impor limites à idéia de comércio, restringindo o afã do capital que pretende tudo transformar em mercadoria.
Aos excelentíssimos senhores e senhoras eleitas/os para o Senado e Câmara Federal, apelamos à responsabilidade de seus mandato, respeitando, ouvindo e considerando a voz das mulheres na defesa do direito ao aborto, debate que precisa ser garantido para este ano no Congresso Nacional. A revisão da legislação que criminaliza a prática de aborto é um compromisso de Beijing.
O tempo eticamente aceitável para que governos do mundo enfrentem definitivamente as dinâmicas econômicas e políticas - que produzem e reproduzem pobreza, injustiça e violência - para nós já acabou. Em 2000, afirmamos que queríamos “algo mais que palavras”. Os governos nos responderam com a Metas do Milênio. Agora, afirmamos que “Não queremos algumas metas, mas ações estruturais e investimentos que garantam as condições de realização da Plataforma de Beijing em sua totalidade, e no curto prazo”.
É urgente que os governos desconstruam o pacto de poder hoje dominante na ONU e construam um espaço verdadeiramente multilateral. É preciso demonstrar as contradições e desigualdades geradas pelas políticas da OMC, escondidas atrás de uma falsa retórica de sucesso. É preciso investir nos organismos internacionais, nacionais e locais de defesa das mulheres e nas políticas para mulheres de caráter anti-racistas, anti-lesbofóbicas, distributivas e universais. É preciso outra economia, solidária e includente. É preciso democracia e direito à diversidade na ordem global, para superar a uniformidade que os tecnocratas do desenvolvimento e o mercado nos impõem, e os colonizadores nos impuseram no passado.
Neste contexto de fragilização do multilateralismo, em especial dos
mecanismos que possibilitariam uma justiça global, a partir dos Direitos
Humanos, vimos conclamar a vossas excelências para honrarem os cargos que
ocupam em representação e confiança do povo brasileiro, do qual metade são
mulheres, atuando em defesa da justiça e igualdade, nos diferentes âmbitos das
relações institucionais nas quais vossas excelências estão hoje situados.
Articulação de Mulheres Brasileiras
Fevereiro de 2005.